"Saudade é amar um passado que ainda não passou. É recusar o presente que nos magoa. É não ver o futuro que nos convida..." Pablo Neruda descreve esse sentimento como ninguém… É precisamente isso que eu leio nas expressões dos velhotes quando estão a devorar a última página do jornal “Ojogo”. “Ai se me aparecesses em novo…” é uma frase muitas vezes proferida por eles, é uma nostalgia profunda que invade de tristeza quem os observa. Mas não deixa de ser engraçado assistir num qualquer café às disputas constantes entre os velhos para tomar de assalto uma página de um jornal que vive em sobressalto num espaçozito do balcão…o tempo é religiosamente cronometrado, a fila para o melhor lugar ultrapassa, seguramente, uns 20 longos metros. Mas as dúvidas sobrepõem-se às certezas… Para que é que eles insistem em vasculhar tal página? O único efeito biológico que se assiste é ao aumento da produção da saliva, o resto está em greve por tempo indeterminado…ou mesmo terminado. O problema é que exaustos da saudade passam para o extremo e para contrariar a frustração da sua impossibilidade, dominados pelo impulso, atiram-se ao comprimido azul com toda a loucura e quem paga é a mulher que tem que ter o trabalho de retirar todas os jarros e vasos de cima dos móveis lá de casa. O sentimento de saudade é agora substituído pela ansiedade porque não há forma de a gravidade fazer o seu papel. Nessas condições não é possível ter uma vida normal, não podem sair de casa porque a porta do elevador não fecha, tem que dormir para o lado da janela com ela aberta, tem que ir buscar o escadote para fazer xixi, mas também tem a vantagem de não precisar do comando da televisão… Mas qualquer das maneiras deviam de ter mais cuidado senão o coração vai à vida...
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
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