quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Uma manhã de natal na aldeia

As aldeias são como paraísos terrenos que permite aos forasteiros um refúgio medicinal. A pureza do seu ar, a inocência da sua água, a envolvência da humildade das pessoas, o cheiro a estrume, o alarme das galinhas saído de autênticos minaretes são tudo sinais de vitalidade e robustez desse mundo que parece resistir a todo tipo de influência socioeconómicas provenientes dos sítios poluídos que moram do outro lado do monte. A vida forçosamente pacata nesse pequeno universo ofereceu às pessoas formas e vivências muito peculiares que se transformaram em registos comportamentais muito próprios definindo-as com ligeira diferença. Tendo em consideração os seus ancestrais a maioria dos portugueses, no natal, são empurrados pela tradição e petiscam uma pequena visita às suas origens. O primeiro sintoma de proximidade do destino são aquelas estradas cheias de curvas que tem como intenção reduzir a velocidade dos carros para que cada aldeão que esteja no café, à porta de casa ou parado num sítio qualquer possa ver quem vai dentro do automóvel, por vezes até dão a sensação que estão em Wimbledon a seguir a bola num jogo de ténis tal a intensidade dos movimentos que fazem com a cabeça cada vez que um carro passa. A hora da missa é soberana, quem não vestir a melhor roupa não entra e depois há aqueles que chegam mais tarde para mostrar as “texanas” novas e como se isso não bastasse procuram o lugar na frente, junto ao altar, sendo que a caminho, como tudo é família, resolvem dar beijinhos a tudo e a todos…não satisfeitos a meio da missa na parte dos cumprimentos voltam a bombardear toda a gente com beijinhos e no fim, já no exterior da igreja, a terceira vaga de beijos arranca com sofreguidão e loucura como se o dia se fosse transformar em noite. Um fenómeno alarmante é perceber que todos aqueles que não são filhos diretos da terra não tem direito a nome, é como na Judeia, são o filho do Manel, o filho do Xico, o filho do Quim ou do filho do Zé e pior do que isso é encontrar família desconhecida por todo lado que não está habituada a cumprimentar de beijo com o encostar de cara e por isso resolvem esfregar os seus lábios na nossa bochecha até abrirem valas, e não contentes libertam um barulho acompanhante que faz parecer que estamos ao lado de uma turbina de um avião. A ida ao café transforma-se numa aventura que nos remete para a lembrança de filmes que outrora foram momentos de entretenimento. Avistar o café ao longe oferece-nos uma visão desencorajadora de indivíduos que protegem a porta de pernas abertas cheios de “stile” a envergar umas calças com letras embutidas de cores diferentes e um blusão com o número 33 cravado por cima de umas letras douradas que todas juntas diziam “Naf Naf”. A imagem de marca do seu estilo, que até se pode considerar intimidatório, é colocar os dedos polegares pendurados no canto de cada bolso deixando os outros quatro irmãos de fora tudo isso acompanhado por um olhar agressivo que na lógica deles é uma técnica de sedução. Para termos acesso ao café temos que ultrapassar um labirinto de motorizadas Casal Sachs e Zundapps Famel que são as meninas dos olhos de cada um representando tudo aquilo que haviam sonhado. Ultrapassado todas essas barreiras que encandeiam os olhos a entrada no café despoleta um silêncio ensurdecedor imbuída de olhares fulminantes que nos fazem sentir como um criminoso procurado. A normalidade volta com o barulho dos matrecos e do bilhar conjugado com o esforço que os seus executantes fazem para vencer cada partida tendo em conta que essa tarefa é melhor forma de elevar o ego para cortejar umas tais miúdas que nada percebem de exigência intelectual.  Mas tudo isto vale a pena porque o almoço lá em casa vem logo a seguir e compensa todas as desventuras perturbantes que nos rodeiam num lugar de inadaptabilidade. 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

LOL

O ano de 2013 irá afigurar uma mudança profunda na minha vida. Os anos são assim mesmo, para além de representarem uma data servem em simultâneo para redefinirmos num ponto temporal uma nova estratégia de vida muitas vezes promovida por questões pessoais ou situacionais. Por vezes a vida, por mais resistências que manifestemos, obriga-nos a sair do nosso caminho numa direção indefinida que nos atormenta pela ocorrência de nos sentirmos num pântano desconhecido sem ramo para nos agarramos. O mundo mudou e obriga-nos a mudar para um contexto social distinto dos hábitos já enraizados; mas o ser humano é um animal de capacidade adaptativa e, por conseguinte, a partir de 2013 sempre que houver razão para me rir não o faço…digo LOL. Já não há mundo para além do LOL. Quando me disserem que o benfica vai ser campeão, em vez de me rir como habitualmente, apresento uma cara ultra seria e verbalizo LOL. Cansei-me de resistir ao LOL, estou rendido à maior aberração da história da informática, no próximo ano irei escrever e dizer vezes sem conta LOL, sei que jamais serei o mesmo mas agora também já nada interessa, estou convertido à estupidez e daí já não saio. Uma coisa que não percebo é que LOL tem três letras e a palavra “rir” também… se dá o mesmo trabalho porque é que se escreve LOL? Já presenciaram alguém a dizer LOL? Acham bonito ver dentro de uma boca aberta uma língua solitária a bater duas vezes no palato? Realmente quando imagino alguém do outro lado a rir e a escrever LOL só me aparece na mente uma cara deformada, até porque essas três letras conjugadas são absolutamente inestéticas. Qualquer dia tem que se colocar no teclado uma tecla adicional só com a sigla LOL. Se isto continuar nesta evolução o mundo é obrigado a fazer um upgrade de todas obras literárias que sustentam as diferentes culturas sob pena de não serem entendidas. Já estou a ver o padre na homilia dominical a citar a bíblia atualizada; “E cristo dirigiu-se para S. Paulo e disse-lhe; - Enche-me o copo PFV. - WTF!! Onde está o vinho? disse S.Paulo,  Cristo respondeu; - O Judas acabou com ele, LOL…” ou nos Maias o Carlos para a Maria Eduarda; “ Ó filha eu sei que és minha irmã mas vais na mesma, LOL…”, até num tribunal o assassino a pedir a absolvição do crime com o juiz a responder; “- LOL, estás maluco!!!”. Essa mania coloca em causa o que escrevemos porque, não poucas vezes, introduzimos um assunto sério para lançar debate e passado alguns segundos recebemos o primeiro LOL proveniente daquelas pessoas que não percebem nada do assunto em questão mas acham-se no direito de comentar da única forma que sabem através do…LOL! Mas pior são aquelas personagens que escrevem um disparate qualquer julgando ter piada e depois acrescentam elas próprias o LOL presenteando os internautas com a triste figura de quem se está a rir informaticamente sozinha. O LOL é já um vício semelhante a uma droga na qual as pessoas não se conseguem desprender e para além disso é altamente contagioso, basta um click…eu fui apanhado.