378… Este número não representa qualquer efeméride, nenhum método de medida nem sequer a porta de ninguém. Este número nunca estaria neste texto se não fizesse parte da maior prova de paciência jamais interpretada por mim. 378 irá perpetuar-se na minha história como o mensageiro do declínio de um diálogo que se antevira ser rico, mas que, inesperadamente se transformara num “rodeo” linguístico que teve como efeito a imperceptibilidade. 378!!! Parece inacreditável mas foram 378 o número de vezes que observei, durante uma conversa, a dentadura de cima esmagar uma chiclete cor-de-rosa contra a dentadura de baixo. Chega a dar pena… É inevitável não personificarmos os sentimentos da chiclete, a sensação de impotência que ela transmite provoca em nós uma vontade louca de a libertarmos. Chega a um ponto que deixamos de absorver qualquer palavra proveniente dessa boca porque a nossa atenção se obriga a focar quase obsessivamente na luta travada entre a chiclete e os molares inquisidores. A nossa envolvência emocional, inconscientemente, transforma-nos numa claque que puxa exaustivamente pela fuga da amiga cor-de-rosa, e quando julgamos que esta vencera a batalha da libertação é no momento que se aproxima das portas da escapatória que é sempre apanhada pelas presas do inimigo cheio de cárie. Pois é!!! Irrita-me conversar com alguém que esteja a mascar chicletes. Não percebo qual é o prazer de conversar com uma refém na boca, é um comportamento que origina um conflito interno na pessoa porque muitas vezes se sepultam num dilema temporal entre mascar ou desalojar uma palavra, e ainda por cima ficam ali a fazer figura de parvo com total indiferença; logicamente, quem paga somos nós que ficamos ali a secar à espera que acabe de mascar para terminar a frase. E o pior de tudo é quando chega a nossa vez de falar e vemos do outro lado uma bola a nascer e crescer, crescer até que nos obriga a dar um passo atrás para não se tornar na nossa redoma. É engraçado observar os amantes das chicletes e perceber que o tamanho da bola representa o seu ego, sendo extraordinário vê-los conseguir fazer uma de meio metro e exultarem-se como se tivessem numa passagem de ano. Entediante é quando estamos imbuídos no nosso discurso e ouvimos um dos ruídos mais irritantes deste planeta…PLOC!!! O rebentamento da bola é a fase de todo este processo que move em nós uma vontade irracional de agredir a pessoa, mais ainda quando em sintonia com essa explosão são libertados perdigotos em grupo e todos contentes que tem a intenção de nos alvejar. O que nos vale é a inspiração “Matrix” que nos ajuda a esquivar da maioria dos misseis mas existe sempre um ou outro que nos atinge. Aquela sensação de sentir algo a esbater na nossa face de origem estranha desconstrói toda a nossa simpatia. O esforço para nos contermos é desumano ainda mais quando essa aversão é alimentada pelo bafo a morango que abandona a boca do parvalhão com quem estamos a conversar, as náuseas e os enjoos apoderam-se de nós o que faz com que merecessem ser batizados com todos os resquícios de comida putrificada que ate então viveram no nosso estômago. Como se não bastasse, após termos conseguido a tão ansiada libertação do diálogo, auscultamos nas nossas costas aquele barulho do despejo da chiclete, já sem sabor, para a sua eterna morada onde irá viver a ser calcada por solas ferozes e insensíveis. Sinto muita mágoa por assistir as chicletes a serem mal tratadas pelas pessoas…







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