terça-feira, 11 de outubro de 2016

Páscoa

Estamos a viver a jornada da saga dos foguetes. Durante um curto período assistiremos a uma espécie de competição pela luta da consagração daquele que mais ruído fizer. É uma espécie de "Oscar", talvez da pior banda sonora, mas que funciona como a aquisição de um estatuto que resultará no respeito dos outros competidores, pelo menos durante todo um ano. Resta aos derrotados o prémio pela melhor mesa, os elementos do compasso não perdoam. Vinho cheio de graça e comidinha com fartura prontos a serem triturados sofregamente. Bem merecem coitados, autênticos Hércules a viver o dia a abanar um badalo que vomita um barulho sem absoluta nota musical. É o tal fragor que emite umas ondas imperceptíveis que transforma as pessoas num estado de tensão indescritível.
-Estão a chegar, está tudo direito? Arranja a gola Aurélio!
Atrás do homem do dito badalo, em segundo plano, aperece o indivíduo do saco vermelho responsável pelo ministério que está incumbido de sacar os envelopes que habitam na mesma mesa do pão de ló mas que de alguma forma promove mais apetite que tudo o resto. Cada passo do homem do saco vermelho é envolto por uma dor agoniante de dúvidas assaltado por um sofrimento estranho construído por uma guerra bélica mental entre Apolo e Dionísio, saco ou bolso. O grupo fecha com a pessoa que transporta a cruz de cristo com a sua habitual expressão de dor. Normalmente é o mais velho devido à necessidade de possuir calos nas mãos e fibra muscular convicta para aguentar uma cruz com litros de baba proveniente de múltiplos lábios caramelizados dos altruistas que não se importam de absorver as bactérias da comunidade. Afinal somos todos irmãos. A despedida é cruel! É nesse momento que se percebe que o rio de pétalas que fora feito com horas dedicadas para a subserviência aos convidados só servira para cagar o soalho. Mas o essencial está feito, a casa fora salpicada com uma água especial e é nesse instante que tudo muda; de repente um escudo invisível de protecção divina começa a envolver a casa o que permite poupar num sistema de alarme. E assim, pelo caminho, passo a passo a cruz vai-se desconstruindo numa bússola que se vai inclinando para um norte magnético determinado pelos copitos de vinhaça bem abonados que acompanham cada honrosa visita. Páscoa é isto, uma boa Páscoa para todos.