terça-feira, 11 de outubro de 2016

Páscoa

Estamos a viver a jornada da saga dos foguetes. Durante um curto período assistiremos a uma espécie de competição pela luta da consagração daquele que mais ruído fizer. É uma espécie de "Oscar", talvez da pior banda sonora, mas que funciona como a aquisição de um estatuto que resultará no respeito dos outros competidores, pelo menos durante todo um ano. Resta aos derrotados o prémio pela melhor mesa, os elementos do compasso não perdoam. Vinho cheio de graça e comidinha com fartura prontos a serem triturados sofregamente. Bem merecem coitados, autênticos Hércules a viver o dia a abanar um badalo que vomita um barulho sem absoluta nota musical. É o tal fragor que emite umas ondas imperceptíveis que transforma as pessoas num estado de tensão indescritível.
-Estão a chegar, está tudo direito? Arranja a gola Aurélio!
Atrás do homem do dito badalo, em segundo plano, aperece o indivíduo do saco vermelho responsável pelo ministério que está incumbido de sacar os envelopes que habitam na mesma mesa do pão de ló mas que de alguma forma promove mais apetite que tudo o resto. Cada passo do homem do saco vermelho é envolto por uma dor agoniante de dúvidas assaltado por um sofrimento estranho construído por uma guerra bélica mental entre Apolo e Dionísio, saco ou bolso. O grupo fecha com a pessoa que transporta a cruz de cristo com a sua habitual expressão de dor. Normalmente é o mais velho devido à necessidade de possuir calos nas mãos e fibra muscular convicta para aguentar uma cruz com litros de baba proveniente de múltiplos lábios caramelizados dos altruistas que não se importam de absorver as bactérias da comunidade. Afinal somos todos irmãos. A despedida é cruel! É nesse momento que se percebe que o rio de pétalas que fora feito com horas dedicadas para a subserviência aos convidados só servira para cagar o soalho. Mas o essencial está feito, a casa fora salpicada com uma água especial e é nesse instante que tudo muda; de repente um escudo invisível de protecção divina começa a envolver a casa o que permite poupar num sistema de alarme. E assim, pelo caminho, passo a passo a cruz vai-se desconstruindo numa bússola que se vai inclinando para um norte magnético determinado pelos copitos de vinhaça bem abonados que acompanham cada honrosa visita. Páscoa é isto, uma boa Páscoa para todos.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Homem no shopping

Charles Darwin nunca disse que o homem evoluiu a partir do macaco. Se houvesse um processo evolutivo que transfigurasse chimpanzés em homens, seria lógico encontrar-se nos dias de hoje macacos transformados em homens, ou “chimpanzomens” de várias categorias. Acontece que homens e macacos atuais provêem de um ancestral comum, que provavelmente era parecido com um... macaco. É irrefutável que o trajeto desenvolvimental dos macacos contemporâneos tal como o dos homens coabitaram em duas linha de aperfeiçoamento que teve como resultado espécies diferentes com características comuns. A guerra do mais adaptado nasce neste momento. A verdade é que o macaco tem uma capacidade inata que lhe permite adaptar-se a qualquer selva, a qualquer espaço estranho, a qualquer árvore ou a qualquer floresta. O homem neste aspeto é inferior ao macaco, possui, inexplicavelmente, uma enorme insuficiência de adaptabilidade a determinados lugares, e a melhor prova disso é assistir à conduta de um homem no shopping. Um homem num shopping é como um urso polar no deserto Kalahari, vive absolutamente inadaptado aos requisitos latentes a esse ambiente. O homem tem a mania de dizer que as mulheres são indecisas mas já viram um homem a estacionar o carro no parque de estacionamento? Nunca estaciona no primeiro espaço disponível que vê, não serve qualquer lugar, tem de ser especial, e depois anda às voltas até se arrepender e quando decide voltar ao primeiro lugar disponível, este já foi. Precisa de ver cinco lugares para escolher um. Já no interior do shopping parecem protagonistas do filme “A lagoa azul”, transmitem sempre uma sensação de desorientação. Os homens são os únicos seres que param para ouvir o que a senhora do cartão Citibank tem para dizer porque julgam que é o seu charme que as faz chamar. No momento em que a baba chega aos pés iniciam novamente a marcha numa direção indeterminada até que esbarram numa loja de perfumes onde tem o hábito de entrar. Eu acho piada é ver esta espécie a tentar borrifar o papel de provas com o perfume mas nunca acertam vai sempre para o corpo e depois fazem isso com três ou quatro perfumes cuja mistura até faz desmaiar o urso da “Natura”. Continuando a saga a sapataria está logo ali, e é no momento em que o homem tira o sapato velho para experimentar o novo que todo o shopping faz “pause”; o cheiro a queijo não é nada se compararmos com a panorâmica da unha gigante agarrada ao dedo grande do pé que espreita fora da meia, uma unhaca digna de uma catana que resolvera agradecer à emprega a sua casa nova. A vontade de mijar aparece com toda a pujança, o alívio surge à medida da libertação da urina para um urinol solitário todo nojento que vive com uma rede que tinha sido verde mas que entretanto mudara para uma tonalidade cor de tijolo. A satisfação da última sacudidela faz sempre o homem esquecer de lavar as mãos, quem paga são os corrimões das escadas rolantes que ficam com os resquícios de urina que depois se alojam em mãos alheias, as mesmas mãos que depois vão buscar um cigarro para o transportar até à boca. Chegando às lojas de roupa o homem aplica outra estratégia que visa impressionar quem não estiver a ver. Para ele é “fixe” e charmoso dobrar a camisola que entretanto tirara da prateleira para experimentar, o problema é que não o sabe fazer e depois enrosca-se numa luta desregrada com a peça de vestuário que quando a devolve à prateleira está toda amarfanhada, quem sofre é a funcionária que terá a missão de a desdobrar para depois voltar a dobrar. O que é giro é vê-los na Fnac armados em catedráticos e fazer perguntas como: “ Ó amigo, qual é a capacidade deste portátil para ter internet?” Internet??? Essa palavra já não se usa, está ultrapassada, antiquada, obsoleta, diz-se net, é net que se diz… As pessoas que dizem internet representam todos aqueles que não percebem nada de informática, farmácia já não se escreve que ph, toca a evoluir. Bem, decididamente e inequivocamente as mulheres estão mais adaptadas à vida no shopping sabem comportar-se, preparam-se e vivem numa harmoniosa relação com todos produtos, o homem nem para lá caminha. 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Uma manhã de natal na aldeia

As aldeias são como paraísos terrenos que permite aos forasteiros um refúgio medicinal. A pureza do seu ar, a inocência da sua água, a envolvência da humildade das pessoas, o cheiro a estrume, o alarme das galinhas saído de autênticos minaretes são tudo sinais de vitalidade e robustez desse mundo que parece resistir a todo tipo de influência socioeconómicas provenientes dos sítios poluídos que moram do outro lado do monte. A vida forçosamente pacata nesse pequeno universo ofereceu às pessoas formas e vivências muito peculiares que se transformaram em registos comportamentais muito próprios definindo-as com ligeira diferença. Tendo em consideração os seus ancestrais a maioria dos portugueses, no natal, são empurrados pela tradição e petiscam uma pequena visita às suas origens. O primeiro sintoma de proximidade do destino são aquelas estradas cheias de curvas que tem como intenção reduzir a velocidade dos carros para que cada aldeão que esteja no café, à porta de casa ou parado num sítio qualquer possa ver quem vai dentro do automóvel, por vezes até dão a sensação que estão em Wimbledon a seguir a bola num jogo de ténis tal a intensidade dos movimentos que fazem com a cabeça cada vez que um carro passa. A hora da missa é soberana, quem não vestir a melhor roupa não entra e depois há aqueles que chegam mais tarde para mostrar as “texanas” novas e como se isso não bastasse procuram o lugar na frente, junto ao altar, sendo que a caminho, como tudo é família, resolvem dar beijinhos a tudo e a todos…não satisfeitos a meio da missa na parte dos cumprimentos voltam a bombardear toda a gente com beijinhos e no fim, já no exterior da igreja, a terceira vaga de beijos arranca com sofreguidão e loucura como se o dia se fosse transformar em noite. Um fenómeno alarmante é perceber que todos aqueles que não são filhos diretos da terra não tem direito a nome, é como na Judeia, são o filho do Manel, o filho do Xico, o filho do Quim ou do filho do Zé e pior do que isso é encontrar família desconhecida por todo lado que não está habituada a cumprimentar de beijo com o encostar de cara e por isso resolvem esfregar os seus lábios na nossa bochecha até abrirem valas, e não contentes libertam um barulho acompanhante que faz parecer que estamos ao lado de uma turbina de um avião. A ida ao café transforma-se numa aventura que nos remete para a lembrança de filmes que outrora foram momentos de entretenimento. Avistar o café ao longe oferece-nos uma visão desencorajadora de indivíduos que protegem a porta de pernas abertas cheios de “stile” a envergar umas calças com letras embutidas de cores diferentes e um blusão com o número 33 cravado por cima de umas letras douradas que todas juntas diziam “Naf Naf”. A imagem de marca do seu estilo, que até se pode considerar intimidatório, é colocar os dedos polegares pendurados no canto de cada bolso deixando os outros quatro irmãos de fora tudo isso acompanhado por um olhar agressivo que na lógica deles é uma técnica de sedução. Para termos acesso ao café temos que ultrapassar um labirinto de motorizadas Casal Sachs e Zundapps Famel que são as meninas dos olhos de cada um representando tudo aquilo que haviam sonhado. Ultrapassado todas essas barreiras que encandeiam os olhos a entrada no café despoleta um silêncio ensurdecedor imbuída de olhares fulminantes que nos fazem sentir como um criminoso procurado. A normalidade volta com o barulho dos matrecos e do bilhar conjugado com o esforço que os seus executantes fazem para vencer cada partida tendo em conta que essa tarefa é melhor forma de elevar o ego para cortejar umas tais miúdas que nada percebem de exigência intelectual.  Mas tudo isto vale a pena porque o almoço lá em casa vem logo a seguir e compensa todas as desventuras perturbantes que nos rodeiam num lugar de inadaptabilidade. 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

LOL

O ano de 2013 irá afigurar uma mudança profunda na minha vida. Os anos são assim mesmo, para além de representarem uma data servem em simultâneo para redefinirmos num ponto temporal uma nova estratégia de vida muitas vezes promovida por questões pessoais ou situacionais. Por vezes a vida, por mais resistências que manifestemos, obriga-nos a sair do nosso caminho numa direção indefinida que nos atormenta pela ocorrência de nos sentirmos num pântano desconhecido sem ramo para nos agarramos. O mundo mudou e obriga-nos a mudar para um contexto social distinto dos hábitos já enraizados; mas o ser humano é um animal de capacidade adaptativa e, por conseguinte, a partir de 2013 sempre que houver razão para me rir não o faço…digo LOL. Já não há mundo para além do LOL. Quando me disserem que o benfica vai ser campeão, em vez de me rir como habitualmente, apresento uma cara ultra seria e verbalizo LOL. Cansei-me de resistir ao LOL, estou rendido à maior aberração da história da informática, no próximo ano irei escrever e dizer vezes sem conta LOL, sei que jamais serei o mesmo mas agora também já nada interessa, estou convertido à estupidez e daí já não saio. Uma coisa que não percebo é que LOL tem três letras e a palavra “rir” também… se dá o mesmo trabalho porque é que se escreve LOL? Já presenciaram alguém a dizer LOL? Acham bonito ver dentro de uma boca aberta uma língua solitária a bater duas vezes no palato? Realmente quando imagino alguém do outro lado a rir e a escrever LOL só me aparece na mente uma cara deformada, até porque essas três letras conjugadas são absolutamente inestéticas. Qualquer dia tem que se colocar no teclado uma tecla adicional só com a sigla LOL. Se isto continuar nesta evolução o mundo é obrigado a fazer um upgrade de todas obras literárias que sustentam as diferentes culturas sob pena de não serem entendidas. Já estou a ver o padre na homilia dominical a citar a bíblia atualizada; “E cristo dirigiu-se para S. Paulo e disse-lhe; - Enche-me o copo PFV. - WTF!! Onde está o vinho? disse S.Paulo,  Cristo respondeu; - O Judas acabou com ele, LOL…” ou nos Maias o Carlos para a Maria Eduarda; “ Ó filha eu sei que és minha irmã mas vais na mesma, LOL…”, até num tribunal o assassino a pedir a absolvição do crime com o juiz a responder; “- LOL, estás maluco!!!”. Essa mania coloca em causa o que escrevemos porque, não poucas vezes, introduzimos um assunto sério para lançar debate e passado alguns segundos recebemos o primeiro LOL proveniente daquelas pessoas que não percebem nada do assunto em questão mas acham-se no direito de comentar da única forma que sabem através do…LOL! Mas pior são aquelas personagens que escrevem um disparate qualquer julgando ter piada e depois acrescentam elas próprias o LOL presenteando os internautas com a triste figura de quem se está a rir informaticamente sozinha. O LOL é já um vício semelhante a uma droga na qual as pessoas não se conseguem desprender e para além disso é altamente contagioso, basta um click…eu fui apanhado.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Natal porquê?

A altura da confusão aproxima-se com ligeireza mas sem subtileza. Considerada por muitas criaturas a temporada mais aprazível do ano não deixa de ser igualmente a mais paradigmática e controversa. Existem aqueles que a vivem com inquestionável superficialidade o que lhes permite desfrutar de todos os costumes e hábitos que a época oferece e outros que ultrapassam a barreira do visível viajando ao profundo na pura tentativa de perceber a origem desses mesmos usos e tradições. Os primeiros “curtem” os segundos questionam-se. A palavra natal vem do latim e deriva do verbo nascor (nasceris, naci, natus sum) que tem o sentido de nascer…mas as únicas referencias escritas do nascimento de Cristo revelam que nasceu em Março!!! Mais inquietante é tentarmos perceber a relação do pinheiro que nesta altura vive dentro de cada casa com o nascimento de Cristo. Quem é que se lembrou do colocar um pinheiro a simbolizar o Natal? Será que Jesus Cristo não nasceu numa gruta mas em cima de um pinheiro e estamos todos enganados? Ou será que os reis Magos estavam a fumar uma “ganza” deitados num ramo do pinheiro quando viram as estrelas cheias de speed? E depois há a mania de colocar um pouco de algodão a envolver o pinheiro para dar a ideia de neve como se na Palestina, terra onde Cristo nasceu, nevasse de manhã à noite. Mais caricato são as bolas penduradas…para que servem as bolas? Se forem ao pinhal de Leiria não há pinheiro nenhum que tenha bolas penduradas; para que é que foram trazer essa mania para os pinheiros de Natal? Só se for para homenagear as bolas do S.José que libertaram o fruto que deu origem ao menino Jesus mas toda a gente diz que foi concebido sem pecado… E depois no aconchego das ditas bolas estão as fitinhas cuja única função é cagar o chão da sala. As fitinhas são como um cachecol que abraçam a árvore transformando-a numa Belle Dominique cheia de plumas. Mas a maior paranóia são as luzes. Para que servem? Para marcar o ritmo das convulsões nos epitéticos? Mas a cereja em cima do bolo foi a invenção do Pai Natal. Uma criança esperta não acredita que um homem gordo consiga descer uma chaminé para colocar um presente numa…meia. Ainda por cima numa meia? Se fosse numas ceroulas ou num gorro estragava a história? E as casas que não tiverem chaminé ele entra pela sanita? E se ele descer pela chaminé como é que não suja a sua longa barba? Mas o melhor de tudo são as prendas. O mais chato é termos o trabalho de retirar a massa, o arroz e o atum da dispensa para lá colocarmos as toneladas de Ferreros Rocher que recebemos e como se isso não bastasse somos obrigados a arranjar espaço nas nossas gavetas para os kilos de meias e boxer provenientes das pessoas mais antigas da família. Já que o Natal é tão importante para as famílias porque é que não se inventa um doce melhor do que pão frito com canela a cavalo? O mais grave de tudo nesta época é a impossibilidade de podermos ver televisão sob pena de quando fecharmos os olhos para adormecemos a nossa mente ser assaltada pela dança erótica da Popota à boleia da sua música irritante. A grande missão deste defeso é convencer as pessoas através de uma mensagem que afinal lhes desejamos um bom natal porque está implícito que na ausência da mesma mensagem lhes desejamos um péssimo natal.  A quantidade de toques de aviso das sms está estritamente relacionado com o limiar de felicidade que a pessoa apresenta nesta época, por vezes a família reúne-se no sofá para competir o volume de mensagens recebidas. Ir às compras nesta fase seja qual for a loja quem nos atende ou há-de ser a Mariah Carey a cantar “All i want for christmas is you” ou o George Michael com o “Last Christmas” e depois são músicas que se entranham dentro de nós empurrando-nos quase até à loucura. Outra tradição milenar na qual tenho profundo respeito é o bacalhau da consoada, a utilização do bacalhau como prato forte da noite de Natal vem desde o ano I DC quando Jesus Cristo com 11 meses de vida no momento que estava a descascar batatas, observou uma couve e lembrou-se, decidiu e comunicou ao mundo: “MEUS AMIGOS A PARTIR DE HOJE A ALIMENTAÇÃO PREDOMINANTE NA NOITE DE CONSOADA VAI SER BACALHAU COM TODOS…COM O OVO BEM COZIDO”!!! Não foi difícil só teve que transformar a água em bacalhau...

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Manias nos casamentos

Para a maioria das pessoas existem alguns segundos nas comuns manhãs que chateiam. O momento do acordar é a nossa tortura diária, por vezes até nos custa adormecer porque sabemos que esse suplício estará presente no próximo abrir de olhos, quase que não dá para saborearmos o sono, a noite passa a correr, entre o adormecer e a tortura corre um espaço temporal à velocidade da luz oferecendo a sensação de dormimos num intervalo entre dois pestanejares. Dormir também adormece os nossos problemas e as nossas responsabilidades, oferece-nos uma serenidade capaz de nos elevar a um mundo espiritual que nos rejuvenesce, dedica-nos sonhos e meditações. A realidade vem com o acordar e é nessa altura que as inquietudes da vida se apoderam da nossa aura. Para mim essa realidade assalta-me todas as manhãs com uma pergunta na qual penso nunca encontrar resposta, é como uma perseguição, não há manhã que não tente encontrar a solução para esse enigma… QUAL SERÁ O SIGNIFICADO DAS BUZINADELAS DOS CARROS NUM CASAMENTO? Esta pergunta vive permanentemente na parede do meu quarto sempre que os meus olhos se abrem para encarar o dia. Como é que seria antes de haver automóveis? Ia a malta toda nas carroças e obrigavam os cavalos a relinchar? Dá a sensação que existe uma competição entre os condutores que vão no cortejo, quem apitar mais vence uma garrafa de groselha e depois um fenómeno interessante é ver o cansaço tomar conta da mão que agride a buzina proporcionando uma ligeira necessidade de descanso e por inerência um certo silêncio do agrado de todos, mas se um se lembra de apitar voltam todos numa ânsia desenfreada a apitar loucamente abafando qualquer sirene dos bombeiros. E depois se um indivíduo apita uma vez o de trás é obrigado a apitar duas vezes, nestas circunstâncias ninguém se atreve a apitar menos de que o outro, o número de apitos tem de significar a proximidade a uns dois noivos. O pior de tudo é quando a corda de automóveis é separada por um solitário semáforo; quem ficar retido no sinal vermelho solta de imediato uma espuma de raiva motivada pela impossibilidade de poder mostrar aos que continuaram a marcha as suas estrondosas apitadelas. Mas qual será o significado dos apitos? Avisar o transeunte que ali vai um casamento? Porquê? O casamento é um momento bizarro que justifique avisar o povo da sua ocorrência? É quase tão descabido como bater no prato para pedir o beijo dos noivos…como se esse beijo significasse alguma coisa para o futuro de cada convidado. Enfim… Mas o apito não tem o mesmo significado se não tiver a companhia da rendinha abraçada à antena do carro ou ao retrovisor. Quem é que foi o idiota que se lembrou dessa merda?? De certeza que foi um gajo que tinha o fetiche das rendinhas e como não tinha gaja colocou no carro mas a verdade é que essa estúpida tradição chegou aos dias de hoje e faz parte dos momentos mais infelizes do dia de casamento, e ainda por cima a malta tem a mania de deixar a fitinha viver colada ao automóvel durante três meses só para dizer que esteve num casamento, só porque é giro dizer que esteve num casamento. Ainda para mais é branca como se hoje em dia as mulheres casassem imaculadas… Vou continuar em busca da resposta para decifrar este caso bicudo…

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Lisboa é um lugar estranho

Porto é Porto, Lisboa é Lisboa. Estou um pouco fatigado de estar sempre a ouvir os tripeiros a falar mal dos alfacinhas, como também já me faz comichão auditiva ouvir dizer que pertencemos a um país pequeno e que somos todos portugueses. Na verdade somos todos portugueses mas isso não representa qualquer tipo de igualdade, alias, se analisarmos à lupa a nossa história, a cultura, personalidade, arquitectura e paisagem percebemos com clareza que Portugal se decompõe em duas partes bem distintas, norte e sul. Sendo esta premissa inequívoca não significa que estes dois pólos não possam viver em harmonia e respeito. Com exactidão sabemos que existe, incompreensivelmente, uma relação de crispação entre as duas maiores cidades que se reflecte em todos os sectores da sociedade. Um paradigma que nunca percebi é a mania dos tripeiros, estupidamente, intitularem de forma pejorativa os lisboetas de “mouros” quando no tempo das invasões os mouros fugiram e deixaram para trás os camelos, portanto, os lisboetas nunca seriam designados de ” mouros” mas sim de “camelos”. A diferença entre os dois povos salienta-se até antes do nascimento, uma grávida de um lisboeta na primeira ecografia nunca vê um feto mas uma folha de alface, aos cinco meses de gestação o resultado do género é sempre inconclusivo sendo que essa incerteza perdurará até aos 20 anos porque terra que faz nascer Carlos Castro e Castelo Branco permite todo o tipo de fenómenos. Um bebé lisboeta quando nasce não chora diz “bué”, bebé que não diga “buè” é renegado e transferido para a Casa Pia. Um tripeiro diz o primeiro palavrão aos três anos, um lisboeta dez minutos antes de morrer; “- Foda-se estou quase a ir”. Num estádio de futebol o insulto define a origem da pessoa, um tripeiro diz ao árbitro palavras simpáticas como; “Ó filho da puta a tua mulher está com um preto, eu se te apanhar fodo-te todo!!”, um lisboeta timidamente aplica palavras insultuosas como; “Ó patife, seu energúmeno, você é um autêntico pateta!” O sotaque dos lisboetas começa a ser ensinado aos vinte meses, aos oito anos já conseguem dizer “caich'dré". Para os alfacinhas ténis não é um desporto, são sapatilhas, se exceptuarmos o Carlos Cruz um garoto não é um puto mas sim um pouco de leite com café. Aos vinte e cinco anos o lisboeta concretiza o sonho de ser taxista para poder ler na praça de táxis o jornal Abola recostado ao volante. O fado faz parte da sua alma, para eles é prática comum assistir numa casa para o efeito pessoas a terem convulsões do pescoço para cima enquanto cantam músicas melancólicas e todas esganiçadas. Um paradigma deste povo não é gostar de caracóis mas perceber como os apanham tendo em conta que trabalhar não é o seu forte. Outra característica interessante dos habitantes de lisboa é o hábito de definirem lisboa como uma cidade com muita luz e claridade quando as suas ruas e paragens do autocarro comprovam que o que não falta é escuridão. Por me lembrar dos autocarros parece-me no mínimo estranho atribuir o nome das linhas de ferro que suportam os comboios à empresa que gere os autocarros…não há dúvidas que parecem um povo diferente e depois é engraçado vê-los com um ar de preeminência a disfarçar o cagaço que tem a um qualquer espirro perdido. Os lisboetas são um pouco egocêntricos, acreditam que para além da CREL não há mais mundo, eles não arriscam ultrapassar essa barreira, porque não sabem, nem querem. Nessa terra a subespécie mais respeitada são os reformados com mais de setenta anos, são a única prova viva dos feitos internacionais do Benfica, são autênticos contadores de histórias, a malta gosta de os ouvir, a malta sabe que esse passado jamais sairá das palavras dos velhinhos. Mas o seu maior orgulho reside no maior embaixador da sua cidade, a sua grande referência, a alma lisboeta que difundiu o seu nome por todo o mundo, que ninguém ouse falar mal do seu ex-líbris, que ninguém se atreva por em causa o valor do seu bitoque, não há bitoque como o de Lisboa, a sua confeção é de uma dificuldade extraordinária, só os sábios lisboetas é que foram abençoados com essa arte. Todos nós somos um pouco do nosso meio, não existe ninguém imune à influência, nesse sentido devemos respeitar as diferenças, viver em paz e em plena harmonia, está na altura de deixarmos de gozar uns com os outros e darmos as mãos. Afinal somos todos portugueses. 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Loja do cidadão


Se um dia me perguntarem, estupidamente, se encontro semelhanças entre a loja do cidadão e a EuroDisney respondo que sim! A inquietude que nos empurra a caminho da loja do cidadão é a prova da imprevisibilidade do tempo que nos irá algemar numa maldita espera de um futuro que poderá nunca se concretizar. A duzentos passos do nosso destino começamos a observar uma fumaça que impede o vislumbramento da porta de entrada, tal como o nevoeiro que amarra o bosque da bruxa má. O cheiro é que nos avisa que o fumo é proveniente das castanhas que estão a ser assadas por um homem que mais parece o professor Pardal. Ultrapassada a neblina observamos uma porta automática cercada por um ambiente diversificado e heterogéneo imbuído num desejo comum de assassinar os torturantes minutos que os separam da resolução das suas intenções. Vê-se de tudo desde o Pato Donald e a Margarida enroscados e encostados a um muro satisfeito, o Peter Pan a vingar-se num cigarro inocente, o rezingão a protestar contra o tempo de espera, o Mickey indiferente a tudo, o Scar contando passos de um lado para o outro…cada um ocupa o tempo como pode e sabe. Mal entramos deparamo-nos com a companhia permanente das escadas rolantes. O segurança lá por se intitular de segurança julga que é mau e poderoso e por isso, como boas vindas, apresenta sempre às pessoas uma tromba que faz lembrar o zangado dos sete anões. À boleia das escadas rolantes encontramos sempre em contramão o Zezinho, o Luisinho e o Huguinho mas desta vez mais sofisticados porque para além do chapéu usam brincos, tatuagem e calças no fundo do cageiro e vivem da caça a um subsídio qualquer da segurança social. Já com o número na mão, enquanto se espera contempla-se o panorama, observamos sempre um Pateta que se esqueceu de um documento qualquer e que depois se põe a implorar à funcionária para resolver o problema fazendo aumentar o tempo de espera de quem desespera. Se tivermos a sorte de um lugar vazio do banco nos chamar a probabilidade de o Grilo Falante do nosso lado meter conversa é enorme. Num instante, com a total ausência de palavras e só com um abanar de cabeça ficamos a conhecer a vida dele. Não é mau até nos ajuda a passar o tempo o problema é que, inacreditavelmente, de vez em quando passam umas Bambis a desfilarem e o nosso olhar não presta avaliação. Chegada a altura de transformar as palavras laterais em ruido de fundo começamos a pressentir a chegada da nossa vez e é nesse momento que iniciamos a observação das hipotéticas funcionárias de serviço e quando damos por nós percebemos que cresceu um desejo consciente, e de certa maneira profundo, de sermos atendidos pela Bela Adormecida em detrimento da Cruella. Concebido o desejo é com suavidade que se alapa o rabo numa cadeira gasta e desconfortável, e ficamos ali a ver a sujeita a agredir um teclado, exclusivamente com o dedo indicador. A nossa visão é ocupada quase na totalidade pelo cú do monitor e de repente vemo-nos ali num silêncio ensurdecedor, e mais inacreditável ainda é a capacidade que essas figuras tem de conseguir estar quase 10 minutos a olhar para o monitor e a menear o rato sem se lembrarem que estamos ali. É nessa altura que o Sininho faz falta, para poder ver e denunciar o que a funcionária está a fazer no computador. Pode até estar a jogar farmville que nunca saberemos... Existem frases que podem ser aplicadas que ajudam a minimizar a tensão como; “ Só um bocadinho”, ou “estou a tentar resolver” ou mesmo a celebre, “o sistema está lento” …a bela adormecida que sendo bela é mesmo adormecida e num impulso olhamos para o lado e vemos a Cruella com domínio total sobre todos os assuntos a despachar as pessoas com eficácia e simpatia. É nesse momento que percebemos que ter-nos coincidido a Bela Adormecida tinha sido um infortúnio, a fada madrinha é que nos dava um jeitaço para que num acto de magia trocasse o mono que habita à nossa frente pela Cruella. No fundo é a história da Bela e do Monstro mas na mesma pessoa… é inevitável não nos sentirmos o Pluto porque falamos, falamos, falamos e ela nada entende e depois devido a sua incompetência acabamos sempre por entregar o nosso dinheiro ao Tio Patinhas. Já dizia António Aleixo; “Nunca se pode avaliar ninguém à primeira vista porque até um aleijado pode ser um artista.”     

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Português que é português

Coçar a tomateira, sem que ninguém se apercebesse, transformou-se num dos símbolos de mudança geracional. Quem fizer o exercício de confrontar o passado com hábitos do presente descobre uma mudança profunda que nada teve a ver com uma simples continuidade comportamental evolutiva mas sim com uma metamorfose apressada e inesperada proveniente de influências alienígenas cuspidas pelos meios de informação. Na verdade as tradições autênticas dos portugueses estão a cair em desuso, o respeito pela nossa genuinidade esfumou-se num par de anos, o poder influênciativo de modas alheias atirou contra a parede toda a nossa verdadeira natureza, os nossos hábitos já não são hábitos, os nossos estereótipos vivem agora no passado, o português já não é português, é simplesmente um homem do mundo. A mania das regras de etiqueta implementadas pelos “cócós” que acham que dar um peido é falta de respeito assassinou a essência do que é ser português. Português que é português coça os tomates em público com a maior das liberdades sem que se tenha de preocupar com a observação e avaliação dos outros, português que é português sente orgulho quando coça e levanta a cabeça passando o olhar por toda a nação inspirando o ar trazido pelo vento representando toda a confiança do mundo; não é português aquele que sente comichão e não coça, aquele que disfarça metendo a mão no bolso já furado para esse efeito, aquele que se esconde com vergonha de sentir vontade de coçar. Português que é português usa bigode…o bigode declama a pujança do que é ser português. Português sem bigode é fogo sem chama, são flores sem perfume. O português sente brio quando sente os salpicos de sopa agarrados aos pêlos do bigode, o guardanapo inimigo nem ousa aparecer, beijo sem bigode para a mulher do português é desenxabido, sentir o buço arranhado provoca nelas ardência e excitação. Português que é português cospe quando tem que cuspir, nunca adia desalojar a gosma, é no momento e com o máximo de barulho possível para avisar todo o mundo que a está arrastar a viscosidade desde o esófago. Cuspir para um lenço é uma paneleirice, o chão é o sítio, a chuva lava tudo. Português que é português gosta de meia branca, meia preta é inestética. A fivela do sapato só sorri na companhia da meia branca, meia preta é para quem não tem gosto, meia preta viola a arte de bem vestir. Português que é português nunca coloca a comida no seu prato, isso é serviço da mulher. A mulher cozinha, serve e lava a louça, para o português essa é a prova da sua existência. Português que é português vai ao café embebedar-se para ter pretextos para bater na mulher, homem que não bate na mulher não é português, a mulher deve estar debaixo do homem quando ele entender, ele manda, se assim não for não é português, é um homem do mundo. Português que é português não corta a unha do dedo mendinho, cotonetes é coisa de gays, ficar com a unha cor de laranja depois da limpeza do ouvido é coisa de homens de pêlo na venta. Unha grande é sinónimo de masculinidade, compostura e vanglória. Unha grande imprime respeito nos outros é sinal de soberania social e estatuto, ninguém ousa impor-se a quem tiver a unhaca crescida. Português que é português usa o tercinho no retrovisor do seu carro, o português não abdica dessa proteção, acredita profundamente que a alma divina o acompanha, não se importa de ver Jesus Cristo pendurado no terço a esmurrar-se permanentemente contra o vidro como se um cisco no olho se tratasse. A presença do terço é imperativo e nunca incomoda. Quem não ombrear o tercinho é um herege, é um cidadão do mundo. Português que é português não se deixa vencer pelas regras de cidadania, o português é corajoso, astuto e insubmisso. Quem respeita as regras não é ousado mas sim um cobarde que não é capaz de viver no limite da aventura. Para um português só cumprem as regras os cagões que não cospem para o chão, que usam meias pretas, que não batem na mulher, que cortam as unhas todas e que não usam o tercinho pendurado. Português que é português não é português. 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Então, estás bom!!


Se Joanne k Rowling não tivesse vivido na majestosa cidade do Porto o Harry Potter nunca teria existido. Não tenho dúvidas que a percepção que a autora desenvolveu do carácter dos portugueses esteve na base de toda a sua inspiração na criação das suas personagens. Eu, de certa forma invejo o nosso amigo Harry Potter…não é por ser mágico e com a sua varinha transformar o que lhe dá na gana, é por ter em sua posse um objecto que me daria um jeitaço do caraças. Eu pagava o que fosse preciso para ter o manto da invisibilidade. A criação deste objeto foi inspirada da necessidade que algumas pessoas têm de se proteger da curiosidade dos tugas. A vontade que tenho em possuir esse cobertor divino não seria para cuscar porque nunca fui intrometido, seria sim para me esconder das pessoas que já não vemos desde o período jurássico que nos abordam como se fossemos os melhores amigos do mundo. Não quero ser prepotente mas considero que, tirando as relações de proximidade, todas as outras são afeições temporárias que aconteceram em determinadas circunstancias movidas pelo meio envolvente. Quando os pontos de comunidade que ligam determinadas criaturas terminam cada uma vai para seu lado e ninguém quer saber mais uns dos outros porque o tempo de afastamento vai apagando gradualmente as vinculações emocionais. É por isso que quando vemos uma pessoa que outrora partilhou connosco momentos de socialização a caminhar na nossa direcção, encurtando a distância com ligeireza, pensamos em mudar de passeio ou vacilamos num olhar para um autocarro a seguir o seu caminho. Mas como nunca queremos ser indelicados resta prepararmo-nos para três possibilidades; a pessoa passa e faz de conta que não nos conhece o que percebo perfeitamente na medida em que não temos nada para conversar, ou deseja falar mas arma-se em difícil e pronuncia aquela frase já utilizada no tempo dos persas, “Conheço-te de algum lado!!!”, ou então prisioneira da curiosidade assalta-nos com a famosa frase,-”Olá tás bom?”Chego a pensar que até preferia que não me tivessem incutido valores porque isto de ser educado é como estar algemado à hipocrisia das normas sociais… Uma pessoa quer ser genuína e sincera mas não pode sob pena de nos colocarem todo o tipo de rótulos. O que desejamos dizer é; Ok! Pronto! Para que raio queres saber se eu estou bom? Por acaso significo alguma coisa para ti? Eu sei como as coisas se processam…tudo que eu disser vai ser repetido a outras pessoas, mas não literalmente porque acrescenta-se sempre um cunho pessoal da pessoa que transmite a mensagem transformando-se num fenómeno em cadeia, sendo que, qualquer dia estou morto na boca de alguém sem saber que estou morto. E depois traz consigo a avalanche de perguntas que toda a gente sabe na ponta da língua: -Que fazes por aqui?…para que é que lhe interessa saber isso? -Então, está tudo em ordem?...para mim é a pergunta mais estúpida, que raio de pergunta! Em ordem ou na ordem? É o mesmo que perguntar; -Está tudo organizado?; -Tá tudo…e depois vem outra… - Que contas?...o que é que eu tenho para contar a uma pessoa que não me diz nada…e a resposta é sempre; -Nada de especial… - Que tens feito? Fodasse…isto não acaba…-Ando por aí…