Se um dia me perguntarem, estupidamente, se encontro semelhanças entre a loja do cidadão e a EuroDisney respondo que sim! A inquietude que nos empurra a caminho da loja do cidadão é a prova da imprevisibilidade do tempo que nos irá algemar numa maldita espera de um futuro que poderá nunca se concretizar. A duzentos passos do nosso destino começamos a observar uma fumaça que impede o vislumbramento da porta de entrada, tal como o nevoeiro que amarra o bosque da bruxa má. O cheiro é que nos avisa que o fumo é proveniente das castanhas que estão a ser assadas por um homem que mais parece o professor Pardal. Ultrapassada a neblina observamos uma porta automática cercada por um ambiente diversificado e heterogéneo imbuído num desejo comum de assassinar os torturantes minutos que os separam da resolução das suas intenções. Vê-se de tudo desde o Pato Donald e a Margarida enroscados e encostados a um muro satisfeito, o Peter Pan a vingar-se num cigarro inocente, o rezingão a protestar contra o tempo de espera, o Mickey indiferente a tudo, o Scar contando passos de um lado para o outro…cada um ocupa o tempo como pode e sabe. Mal entramos deparamo-nos com a companhia permanente das escadas rolantes. O segurança lá por se intitular de segurança julga que é mau e poderoso e por isso, como boas vindas, apresenta sempre às pessoas uma tromba que faz lembrar o zangado dos sete anões. À boleia das escadas rolantes encontramos sempre em contramão o Zezinho, o Luisinho e o Huguinho mas desta vez mais sofisticados porque para além do chapéu usam brincos, tatuagem e calças no fundo do cageiro e vivem da caça a um subsídio qualquer da segurança social. Já com o número na mão, enquanto se espera contempla-se o panorama, observamos sempre um Pateta que se esqueceu de um documento qualquer e que depois se põe a implorar à funcionária para resolver o problema fazendo aumentar o tempo de espera de quem desespera. Se tivermos a sorte de um lugar vazio do banco nos chamar a probabilidade de o Grilo Falante do nosso lado meter conversa é enorme. Num instante, com a total ausência de palavras e só com um abanar de cabeça ficamos a conhecer a vida dele. Não é mau até nos ajuda a passar o tempo o problema é que, inacreditavelmente, de vez em quando passam umas Bambis a desfilarem e o nosso olhar não presta avaliação. Chegada a altura de transformar as palavras laterais em ruido de fundo começamos a pressentir a chegada da nossa vez e é nesse momento que iniciamos a observação das hipotéticas funcionárias de serviço e quando damos por nós percebemos que cresceu um desejo consciente, e de certa maneira profundo, de sermos atendidos pela Bela Adormecida em detrimento da Cruella. Concebido o desejo é com suavidade que se alapa o rabo numa cadeira gasta e desconfortável, e ficamos ali a ver a sujeita a agredir um teclado, exclusivamente com o dedo indicador. A nossa visão é ocupada quase na totalidade pelo cú do monitor e de repente vemo-nos ali num silêncio ensurdecedor, e mais inacreditável ainda é a capacidade que essas figuras tem de conseguir estar quase 10 minutos a olhar para o monitor e a menear o rato sem se lembrarem que estamos ali. É nessa altura que o Sininho faz falta, para poder ver e denunciar o que a funcionária está a fazer no computador. Pode até estar a jogar farmville que nunca saberemos... Existem frases que podem ser aplicadas que ajudam a minimizar a tensão como; “ Só um bocadinho”, ou “estou a tentar resolver” ou mesmo a celebre, “o sistema está lento” …a bela adormecida que sendo bela é mesmo adormecida e num impulso olhamos para o lado e vemos a Cruella com domínio total sobre todos os assuntos a despachar as pessoas com eficácia e simpatia. É nesse momento que percebemos que ter-nos coincidido a Bela Adormecida tinha sido um infortúnio, a fada madrinha é que nos dava um jeitaço para que num acto de magia trocasse o mono que habita à nossa frente pela Cruella. No fundo é a história da Bela e do Monstro mas na mesma pessoa… é inevitável não nos sentirmos o Pluto porque falamos, falamos, falamos e ela nada entende e depois devido a sua incompetência acabamos sempre por entregar o nosso dinheiro ao Tio Patinhas. Já dizia António Aleixo; “Nunca se pode avaliar ninguém à primeira vista porque até um aleijado pode ser um artista.”










