sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Loja do cidadão


Se um dia me perguntarem, estupidamente, se encontro semelhanças entre a loja do cidadão e a EuroDisney respondo que sim! A inquietude que nos empurra a caminho da loja do cidadão é a prova da imprevisibilidade do tempo que nos irá algemar numa maldita espera de um futuro que poderá nunca se concretizar. A duzentos passos do nosso destino começamos a observar uma fumaça que impede o vislumbramento da porta de entrada, tal como o nevoeiro que amarra o bosque da bruxa má. O cheiro é que nos avisa que o fumo é proveniente das castanhas que estão a ser assadas por um homem que mais parece o professor Pardal. Ultrapassada a neblina observamos uma porta automática cercada por um ambiente diversificado e heterogéneo imbuído num desejo comum de assassinar os torturantes minutos que os separam da resolução das suas intenções. Vê-se de tudo desde o Pato Donald e a Margarida enroscados e encostados a um muro satisfeito, o Peter Pan a vingar-se num cigarro inocente, o rezingão a protestar contra o tempo de espera, o Mickey indiferente a tudo, o Scar contando passos de um lado para o outro…cada um ocupa o tempo como pode e sabe. Mal entramos deparamo-nos com a companhia permanente das escadas rolantes. O segurança lá por se intitular de segurança julga que é mau e poderoso e por isso, como boas vindas, apresenta sempre às pessoas uma tromba que faz lembrar o zangado dos sete anões. À boleia das escadas rolantes encontramos sempre em contramão o Zezinho, o Luisinho e o Huguinho mas desta vez mais sofisticados porque para além do chapéu usam brincos, tatuagem e calças no fundo do cageiro e vivem da caça a um subsídio qualquer da segurança social. Já com o número na mão, enquanto se espera contempla-se o panorama, observamos sempre um Pateta que se esqueceu de um documento qualquer e que depois se põe a implorar à funcionária para resolver o problema fazendo aumentar o tempo de espera de quem desespera. Se tivermos a sorte de um lugar vazio do banco nos chamar a probabilidade de o Grilo Falante do nosso lado meter conversa é enorme. Num instante, com a total ausência de palavras e só com um abanar de cabeça ficamos a conhecer a vida dele. Não é mau até nos ajuda a passar o tempo o problema é que, inacreditavelmente, de vez em quando passam umas Bambis a desfilarem e o nosso olhar não presta avaliação. Chegada a altura de transformar as palavras laterais em ruido de fundo começamos a pressentir a chegada da nossa vez e é nesse momento que iniciamos a observação das hipotéticas funcionárias de serviço e quando damos por nós percebemos que cresceu um desejo consciente, e de certa maneira profundo, de sermos atendidos pela Bela Adormecida em detrimento da Cruella. Concebido o desejo é com suavidade que se alapa o rabo numa cadeira gasta e desconfortável, e ficamos ali a ver a sujeita a agredir um teclado, exclusivamente com o dedo indicador. A nossa visão é ocupada quase na totalidade pelo cú do monitor e de repente vemo-nos ali num silêncio ensurdecedor, e mais inacreditável ainda é a capacidade que essas figuras tem de conseguir estar quase 10 minutos a olhar para o monitor e a menear o rato sem se lembrarem que estamos ali. É nessa altura que o Sininho faz falta, para poder ver e denunciar o que a funcionária está a fazer no computador. Pode até estar a jogar farmville que nunca saberemos... Existem frases que podem ser aplicadas que ajudam a minimizar a tensão como; “ Só um bocadinho”, ou “estou a tentar resolver” ou mesmo a celebre, “o sistema está lento” …a bela adormecida que sendo bela é mesmo adormecida e num impulso olhamos para o lado e vemos a Cruella com domínio total sobre todos os assuntos a despachar as pessoas com eficácia e simpatia. É nesse momento que percebemos que ter-nos coincidido a Bela Adormecida tinha sido um infortúnio, a fada madrinha é que nos dava um jeitaço para que num acto de magia trocasse o mono que habita à nossa frente pela Cruella. No fundo é a história da Bela e do Monstro mas na mesma pessoa… é inevitável não nos sentirmos o Pluto porque falamos, falamos, falamos e ela nada entende e depois devido a sua incompetência acabamos sempre por entregar o nosso dinheiro ao Tio Patinhas. Já dizia António Aleixo; “Nunca se pode avaliar ninguém à primeira vista porque até um aleijado pode ser um artista.”     

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Português que é português

Coçar a tomateira, sem que ninguém se apercebesse, transformou-se num dos símbolos de mudança geracional. Quem fizer o exercício de confrontar o passado com hábitos do presente descobre uma mudança profunda que nada teve a ver com uma simples continuidade comportamental evolutiva mas sim com uma metamorfose apressada e inesperada proveniente de influências alienígenas cuspidas pelos meios de informação. Na verdade as tradições autênticas dos portugueses estão a cair em desuso, o respeito pela nossa genuinidade esfumou-se num par de anos, o poder influênciativo de modas alheias atirou contra a parede toda a nossa verdadeira natureza, os nossos hábitos já não são hábitos, os nossos estereótipos vivem agora no passado, o português já não é português, é simplesmente um homem do mundo. A mania das regras de etiqueta implementadas pelos “cócós” que acham que dar um peido é falta de respeito assassinou a essência do que é ser português. Português que é português coça os tomates em público com a maior das liberdades sem que se tenha de preocupar com a observação e avaliação dos outros, português que é português sente orgulho quando coça e levanta a cabeça passando o olhar por toda a nação inspirando o ar trazido pelo vento representando toda a confiança do mundo; não é português aquele que sente comichão e não coça, aquele que disfarça metendo a mão no bolso já furado para esse efeito, aquele que se esconde com vergonha de sentir vontade de coçar. Português que é português usa bigode…o bigode declama a pujança do que é ser português. Português sem bigode é fogo sem chama, são flores sem perfume. O português sente brio quando sente os salpicos de sopa agarrados aos pêlos do bigode, o guardanapo inimigo nem ousa aparecer, beijo sem bigode para a mulher do português é desenxabido, sentir o buço arranhado provoca nelas ardência e excitação. Português que é português cospe quando tem que cuspir, nunca adia desalojar a gosma, é no momento e com o máximo de barulho possível para avisar todo o mundo que a está arrastar a viscosidade desde o esófago. Cuspir para um lenço é uma paneleirice, o chão é o sítio, a chuva lava tudo. Português que é português gosta de meia branca, meia preta é inestética. A fivela do sapato só sorri na companhia da meia branca, meia preta é para quem não tem gosto, meia preta viola a arte de bem vestir. Português que é português nunca coloca a comida no seu prato, isso é serviço da mulher. A mulher cozinha, serve e lava a louça, para o português essa é a prova da sua existência. Português que é português vai ao café embebedar-se para ter pretextos para bater na mulher, homem que não bate na mulher não é português, a mulher deve estar debaixo do homem quando ele entender, ele manda, se assim não for não é português, é um homem do mundo. Português que é português não corta a unha do dedo mendinho, cotonetes é coisa de gays, ficar com a unha cor de laranja depois da limpeza do ouvido é coisa de homens de pêlo na venta. Unha grande é sinónimo de masculinidade, compostura e vanglória. Unha grande imprime respeito nos outros é sinal de soberania social e estatuto, ninguém ousa impor-se a quem tiver a unhaca crescida. Português que é português usa o tercinho no retrovisor do seu carro, o português não abdica dessa proteção, acredita profundamente que a alma divina o acompanha, não se importa de ver Jesus Cristo pendurado no terço a esmurrar-se permanentemente contra o vidro como se um cisco no olho se tratasse. A presença do terço é imperativo e nunca incomoda. Quem não ombrear o tercinho é um herege, é um cidadão do mundo. Português que é português não se deixa vencer pelas regras de cidadania, o português é corajoso, astuto e insubmisso. Quem respeita as regras não é ousado mas sim um cobarde que não é capaz de viver no limite da aventura. Para um português só cumprem as regras os cagões que não cospem para o chão, que usam meias pretas, que não batem na mulher, que cortam as unhas todas e que não usam o tercinho pendurado. Português que é português não é português. 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Então, estás bom!!


Se Joanne k Rowling não tivesse vivido na majestosa cidade do Porto o Harry Potter nunca teria existido. Não tenho dúvidas que a percepção que a autora desenvolveu do carácter dos portugueses esteve na base de toda a sua inspiração na criação das suas personagens. Eu, de certa forma invejo o nosso amigo Harry Potter…não é por ser mágico e com a sua varinha transformar o que lhe dá na gana, é por ter em sua posse um objecto que me daria um jeitaço do caraças. Eu pagava o que fosse preciso para ter o manto da invisibilidade. A criação deste objeto foi inspirada da necessidade que algumas pessoas têm de se proteger da curiosidade dos tugas. A vontade que tenho em possuir esse cobertor divino não seria para cuscar porque nunca fui intrometido, seria sim para me esconder das pessoas que já não vemos desde o período jurássico que nos abordam como se fossemos os melhores amigos do mundo. Não quero ser prepotente mas considero que, tirando as relações de proximidade, todas as outras são afeições temporárias que aconteceram em determinadas circunstancias movidas pelo meio envolvente. Quando os pontos de comunidade que ligam determinadas criaturas terminam cada uma vai para seu lado e ninguém quer saber mais uns dos outros porque o tempo de afastamento vai apagando gradualmente as vinculações emocionais. É por isso que quando vemos uma pessoa que outrora partilhou connosco momentos de socialização a caminhar na nossa direcção, encurtando a distância com ligeireza, pensamos em mudar de passeio ou vacilamos num olhar para um autocarro a seguir o seu caminho. Mas como nunca queremos ser indelicados resta prepararmo-nos para três possibilidades; a pessoa passa e faz de conta que não nos conhece o que percebo perfeitamente na medida em que não temos nada para conversar, ou deseja falar mas arma-se em difícil e pronuncia aquela frase já utilizada no tempo dos persas, “Conheço-te de algum lado!!!”, ou então prisioneira da curiosidade assalta-nos com a famosa frase,-”Olá tás bom?”Chego a pensar que até preferia que não me tivessem incutido valores porque isto de ser educado é como estar algemado à hipocrisia das normas sociais… Uma pessoa quer ser genuína e sincera mas não pode sob pena de nos colocarem todo o tipo de rótulos. O que desejamos dizer é; Ok! Pronto! Para que raio queres saber se eu estou bom? Por acaso significo alguma coisa para ti? Eu sei como as coisas se processam…tudo que eu disser vai ser repetido a outras pessoas, mas não literalmente porque acrescenta-se sempre um cunho pessoal da pessoa que transmite a mensagem transformando-se num fenómeno em cadeia, sendo que, qualquer dia estou morto na boca de alguém sem saber que estou morto. E depois traz consigo a avalanche de perguntas que toda a gente sabe na ponta da língua: -Que fazes por aqui?…para que é que lhe interessa saber isso? -Então, está tudo em ordem?...para mim é a pergunta mais estúpida, que raio de pergunta! Em ordem ou na ordem? É o mesmo que perguntar; -Está tudo organizado?; -Tá tudo…e depois vem outra… - Que contas?...o que é que eu tenho para contar a uma pessoa que não me diz nada…e a resposta é sempre; -Nada de especial… - Que tens feito? Fodasse…isto não acaba…-Ando por aí…

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Vida de chiclete

378… Este número não representa qualquer efeméride, nenhum método de medida nem sequer a porta de ninguém. Este número nunca estaria neste texto se não fizesse parte da maior prova de paciência jamais interpretada por mim. 378 irá perpetuar-se na minha história como o mensageiro do declínio de um diálogo que se antevira ser rico, mas que, inesperadamente se transformara num  “rodeo” linguístico que teve como efeito a imperceptibilidade. 378!!! Parece inacreditável mas foram 378 o número de vezes que observei, durante uma conversa, a dentadura de cima esmagar uma chiclete cor-de-rosa contra a dentadura de baixo. Chega a dar pena… É inevitável não personificarmos os sentimentos da chiclete, a sensação de impotência que ela transmite provoca em nós uma vontade louca de a libertarmos. Chega a um ponto que deixamos de absorver qualquer palavra proveniente dessa boca porque a nossa atenção se obriga a focar quase obsessivamente na luta travada entre a chiclete e os molares inquisidores. A nossa envolvência emocional, inconscientemente, transforma-nos numa claque que puxa exaustivamente pela fuga da amiga cor-de-rosa, e quando julgamos que esta vencera a batalha da libertação é no momento que se aproxima das portas da escapatória que é sempre apanhada pelas presas do inimigo cheio de cárie. Pois é!!! Irrita-me conversar com alguém que esteja a mascar chicletes. Não percebo qual é o prazer de conversar com uma refém na boca, é um comportamento que origina um conflito interno na pessoa porque muitas vezes se sepultam num dilema temporal entre mascar ou desalojar uma palavra, e ainda por cima ficam ali a fazer figura de parvo com total indiferença; logicamente, quem paga somos nós que ficamos ali a secar à espera que acabe de mascar para terminar a frase. E o pior de tudo é quando chega a nossa vez de falar e vemos do outro lado uma bola a nascer e crescer, crescer até que nos obriga a dar um passo atrás para não se tornar na nossa redoma. É engraçado observar os amantes das chicletes e perceber que o tamanho da bola representa o seu ego, sendo extraordinário vê-los conseguir fazer uma de meio metro e exultarem-se como se tivessem numa passagem de ano. Entediante é quando estamos imbuídos no nosso discurso e ouvimos um dos ruídos mais irritantes deste planeta…PLOC!!!   O rebentamento da bola é a fase de todo este processo que move em nós uma vontade irracional de agredir a pessoa, mais ainda quando em sintonia com essa explosão são libertados perdigotos em grupo e todos contentes que tem a intenção de nos alvejar. O que nos vale é a inspiração “Matrix” que nos ajuda a esquivar da maioria dos misseis mas existe sempre um ou outro que nos atinge. Aquela sensação de sentir algo a esbater na nossa face de origem estranha desconstrói toda a nossa simpatia. O esforço para nos contermos é desumano ainda mais quando essa aversão é alimentada pelo bafo a morango que abandona a boca do parvalhão com quem estamos a conversar, as náuseas e os enjoos apoderam-se de nós o que faz com que merecessem ser batizados com todos os resquícios de comida putrificada que ate então viveram no nosso estômago.  Como se não bastasse, após termos conseguido a tão ansiada libertação do diálogo, auscultamos nas nossas costas aquele barulho do despejo da chiclete, já sem sabor, para a sua eterna morada onde irá viver a ser calcada por solas ferozes e insensíveis. Sinto muita mágoa por assistir as chicletes a serem mal tratadas pelas pessoas…     

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Mão no bolso

Eu vejo a vida como um conjunto de etapas que se sobrepõem mas que em certa medida não se manifestam numa continuidade. Esta complexidade transporta-nos para uma espécie de barafunda vivencial. Cada fase da vida deveria arcar com a missão de consagrar as pessoas de astúcia e saber para melhor se gerir a etapa seguinte, todavia, o que acontece muitas vezes é um retrocesso do comportamento admissível. Como todos sabemos uma das fases mais complicadas do nosso caminho até à cova é a adolescência; o estado de adolescência é prova real da estagnação da evolução da pessoa enquanto ser inteligente. Se analisarmos à lupa todos os comportamentos irritantes da raça humana verificamos que 90% residem neste período…eu percebo que é uma altura de procura de identidade, aceito perfeitamente que se cague o espelho com resquícios de acne, até que se suje os lençóis, mas o que eu nunca entenderei é a vontade louca que os adolescentes têm em mostrar ao mundo que têm consentimento do(a) parceiro(a) para lhe chapar a mão no cú. O rabo não pode cair na banalidade, deve ser valorizado consoante a sua importância, os glúteos são os músculos mais fortes do corpo humano, têm a difícil tarefa de nos manter “erécteis” e proporcionar a nossa marcha, logo, irrita-me achar que a juventude pense que a função do rabo é exclusivamente para receber apalpões. Eu quero acreditar que esse estímulo é resultado de uma necessidade inata que floresce na altura da puberdade, eu sei que a vida até então só permitiu apalpar o próprio rabo, eu percebo que possa existir uma carência assente na curiosidade de perceber se os cús são desiguais mas, caramba, não é preciso manter a mão colada no bolso do cagueiro durante horas para perceber isso. Quem morar perto duma escola já sabe que quando soar o toque de saída iniciar-se-á um desfile de casais todos abraçados com a mão no bolso traseiro a segurar as “nalgas”, e depois olham para trás para um qualquer transeunte e esboçam aquele sorriso de confiança como se uma mão no cú alheio fosse uma grande obra de arquitectura. Chega a dar a sensação que a função do bolso de trás é unicamente para receber uma mão porque nunca serviu para outro tipo de serviço. Mesmo no tempo quente, quando todos nós desejamos ter o mínimo de roupa possível os adolescentes parece que andam cheios de frio porque não deixam de colocar a mão no bolso quente do rabiosque do(a) amigo(a) e depois o mais engraçado é vê-los a marchar abraçados em dessintonia, todos taralhoucos, muitas vezes até se calcam mas a mão no cú permanece sempre imperturbável. Eles estão tão adaptados que conseguem escrever sms com uma mão sem tirar a outra do casulo, dá a impressão que a Levis reveste o interior dos bolsos a velcro. Este paradigma não se resume a casais de namorados, é um vício que se cimentou no comportamento global dos adolescentes, se falha um cú para colocar a mão procura-se imediatamente outro, qualquer dia só se irão reconhecer pela palpação do rabo, já não vai interessar os olhos azuis ou os lábios carnudos mas sim o tipo de cú. Qual será o significado de tal comportamento? O mundo deu uma volta ao contrário, no meu tempo um adolescente para se afirmar perante os outros começava a fumar e metia-se na droga, hoje em dia é o que vemos. Devia haver uma lei que proibisse a confeção de bolsos traseiros para acabar com esta vergonha…