O outono está aí e tem três meses para preparar as
pessoas para o inverno. Para mim é uma boa notícia porque adoro o inverno, sempre
estive inserido na minoria quase clandestina de pessoas que preferem andar
molhadas da chuva a transpiradas, que preferem viver despenteadas ao vento a
lambidas, preferem ter frio a viver pegajosas, preferem não cheirar a emanar um
bafo fétido a suor… Sempre tive muitas dificuldades em perceber o motivo pelo
qual a maioria das criaturas veneram o verão, aliás muitas vezes inquieta-me observar
algumas bocas a expulsar frases como; “Está um calor que não se pode”, “Preciso
de um banho, estou todo suado”, “Vamos para a sombra para fugir do Sol”, Não se
consegue dormir com este calor”, “raios partam as moscas”, “ O volante do carro
queima”… e o engraçado é que são as mesmas pessoas que dizem que adoram o
verão. E depois existem aquelas pessoas que odeiam o inverno, são as que desabafam;
“Sabe-me pela vida ouvir a chuva a bater na janela enquanto estou a ver um
filme na companhia do cobertor”, “Adoro estar à lareira”, “É tão bom com o frio
ir para a cama quentinha”, “ Sabe bem dormir de pijama fofinho”…um verdadeiro
paradoxo! O grande problema do inverno nem é o tempo em si mas os
guarda-chuvas. Deambular no passeio em tempo de chuva pode transformar-se numa
aventura sem precedentes, o perigo da desatenção dos condutores dos “chuços”
pode tornar perigoso uma simples caminhada. A universidade do Porto é muito
rica em todos os saberes mas peca por não ter um curso que ensinasse as pessoas
a utilizarem o guarda-chuva em via pública. Carregar um guarda-chuva devia
obrigar a uma licença de condução porque a maioria das pessoas acha que é como
ir sozinha, e nem se lembram que por inerência ocupam mais espaço e que o
passeio é da pertença de mais pessoas. Para quem não usa guarda-chuva como eu, ver um
“chuço” no nosso caminho é como um forcado ver um touro à frente, a
probabilidade de nos magoarmos é relativamente elevada, existe uma tendência
para a vareta do guarda-chuva procurar o nosso olho porque o seu portador ou
inclina o “chuço” para a dianteira e leva tudo à frente ou se distrai por
múltiplas razões e bate-nos com ele. A verdade é que temos que ser nós a forçar
o desvio, muitas vezes para o habitat dos carros, porque considero ser
preferível partir uma perna do que ficar cego. A falta de sentido coletivo das
pessoas que usam “chuço” qualquer dia vai obrigar-nos a usar capacete de
viseira em pleno passeio para não nos lixarem a córnea. Eu odeio o
guarda-chuva. Nunca entendi porque ombrearam esse nome se ele guarda a cabeça e
não a chuva, o nome correto devia ser guarda-cabeça. O guarda-chuva é um
objecto badalhoco, nunca sabemos porque mãos passaram, não há ninguém que não o
perca como também não há ninguém que não se apodere de um “chuço” alheio. Ele
paira de mãos em mãos, eu nunca saberei se os que perdi em pequeno não estarão
na América do sul. Esses malditos só devem funcionar com pessoas pequenas, das
poucas vezes que utilizei essa arma de comédia fiquei com as minhas pernas e
ombros encharcados. Divertido é ver alguém à procura do seu “chuço” depois de o
ter perdido. Uma estratégia para procurar compaixão nos outros é apelar ao
enorme valor estimativo que acompanhava o “chuço”, mas quando nos predispomos
para ouvir a história percebemos que foi comprado a um indiano da rua das
flores que deixou a família na sua terra aos 12 anos. E depois o mais irritante
é a falta de educação dos defensores do uso do “chuço”, sempre que veem alguém à
chuva comentam:- Olha para aquele parvalhão à chuva! Neste mundo as minorias nunca
serão respeitadas. Viva o inverno sem guarda-chuvas!!!!







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