terça-feira, 25 de setembro de 2012

Odeio o guarda-chuva


O outono está aí e tem três meses para preparar as pessoas para o inverno. Para mim é uma boa notícia porque adoro o inverno, sempre estive inserido na minoria quase clandestina de pessoas que preferem andar molhadas da chuva a transpiradas, que preferem viver despenteadas ao vento a lambidas, preferem ter frio a viver pegajosas, preferem não cheirar a emanar um bafo fétido a suor… Sempre tive muitas dificuldades em perceber o motivo pelo qual a maioria das criaturas veneram o verão, aliás muitas vezes inquieta-me observar algumas bocas a expulsar frases como; “Está um calor que não se pode”, “Preciso de um banho, estou todo suado”, “Vamos para a sombra para fugir do Sol”, Não se consegue dormir com este calor”, “raios partam as moscas”, “ O volante do carro queima”… e o engraçado é que são as mesmas pessoas que dizem que adoram o verão. E depois existem aquelas pessoas que odeiam o inverno, são as que desabafam; “Sabe-me pela vida ouvir a chuva a bater na janela enquanto estou a ver um filme na companhia do cobertor”, “Adoro estar à lareira”, “É tão bom com o frio ir para a cama quentinha”, “ Sabe bem dormir de pijama fofinho”…um verdadeiro paradoxo! O grande problema do inverno nem é o tempo em si mas os guarda-chuvas. Deambular no passeio em tempo de chuva pode transformar-se numa aventura sem precedentes, o perigo da desatenção dos condutores dos “chuços” pode tornar perigoso uma simples caminhada. A universidade do Porto é muito rica em todos os saberes mas peca por não ter um curso que ensinasse as pessoas a utilizarem o guarda-chuva em via pública. Carregar um guarda-chuva devia obrigar a uma licença de condução porque a maioria das pessoas acha que é como ir sozinha, e nem se lembram que por inerência ocupam mais espaço e que o passeio é da pertença de mais pessoas.  Para quem não usa guarda-chuva como eu, ver um “chuço” no nosso caminho é como um forcado ver um touro à frente, a probabilidade de nos magoarmos é relativamente elevada, existe uma tendência para a vareta do guarda-chuva procurar o nosso olho porque o seu portador ou inclina o “chuço” para a dianteira e leva tudo à frente ou se distrai por múltiplas razões e bate-nos com ele. A verdade é que temos que ser nós a forçar o desvio, muitas vezes para o habitat dos carros, porque considero ser preferível partir uma perna do que ficar cego. A falta de sentido coletivo das pessoas que usam “chuço” qualquer dia vai obrigar-nos a usar capacete de viseira em pleno passeio para não nos lixarem a córnea. Eu odeio o guarda-chuva. Nunca entendi porque ombrearam esse nome se ele guarda a cabeça e não a chuva, o nome correto devia ser guarda-cabeça. O guarda-chuva é um objecto badalhoco, nunca sabemos porque mãos passaram, não há ninguém que não o perca como também não há ninguém que não se apodere de um “chuço” alheio. Ele paira de mãos em mãos, eu nunca saberei se os que perdi em pequeno não estarão na América do sul. Esses malditos só devem funcionar com pessoas pequenas, das poucas vezes que utilizei essa arma de comédia fiquei com as minhas pernas e ombros encharcados. Divertido é ver alguém à procura do seu “chuço” depois de o ter perdido. Uma estratégia para procurar compaixão nos outros é apelar ao enorme valor estimativo que acompanhava o “chuço”, mas quando nos predispomos para ouvir a história percebemos que foi comprado a um indiano da rua das flores que deixou a família na sua terra aos 12 anos. E depois o mais irritante é a falta de educação dos defensores do uso do “chuço”, sempre que veem alguém à chuva comentam:- Olha para aquele parvalhão à chuva! Neste mundo as minorias nunca serão respeitadas. Viva o inverno sem guarda-chuvas!!!!

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