Porto é Porto, Lisboa é Lisboa. Estou um pouco fatigado de estar sempre a ouvir os tripeiros a falar mal dos alfacinhas, como também já me faz comichão auditiva ouvir dizer que pertencemos a um país pequeno e que somos todos portugueses. Na verdade somos todos portugueses mas isso não representa qualquer tipo de igualdade, alias, se analisarmos à lupa a nossa história, a cultura, personalidade, arquitectura e paisagem percebemos com clareza que Portugal se decompõe em duas partes bem distintas, norte e sul. Sendo esta premissa inequívoca não significa que estes dois pólos não possam viver em harmonia e respeito. Com exactidão sabemos que existe, incompreensivelmente, uma relação de crispação entre as duas maiores cidades que se reflecte em todos os sectores da sociedade. Um paradigma que nunca percebi é a mania dos tripeiros, estupidamente, intitularem de forma pejorativa os lisboetas de “mouros” quando no tempo das invasões os mouros fugiram e deixaram para trás os camelos, portanto, os lisboetas nunca seriam designados de ” mouros” mas sim de “camelos”. A diferença entre os dois povos salienta-se até antes do nascimento, uma grávida de um lisboeta na primeira ecografia nunca vê um feto mas uma folha de alface, aos cinco meses de gestação o resultado do género é sempre inconclusivo sendo que essa incerteza perdurará até aos 20 anos porque terra que faz nascer Carlos Castro e Castelo Branco permite todo o tipo de fenómenos. Um bebé lisboeta quando nasce não chora diz “bué”, bebé que não diga “buè” é renegado e transferido para a Casa Pia. Um tripeiro diz o primeiro palavrão aos três anos, um lisboeta dez minutos antes de morrer; “- Foda-se estou quase a ir”. Num estádio de futebol o insulto define a origem da pessoa, um tripeiro diz ao árbitro palavras simpáticas como; “Ó filho da puta a tua mulher está com um preto, eu se te apanhar fodo-te todo!!”, um lisboeta timidamente aplica palavras insultuosas como; “Ó patife, seu energúmeno, você é um autêntico pateta!” O sotaque dos lisboetas começa a ser ensinado aos vinte meses, aos oito anos já conseguem dizer “caich'dré". Para os alfacinhas ténis não é um desporto, são sapatilhas, se exceptuarmos o Carlos Cruz um garoto não é um puto mas sim um pouco de leite com café. Aos vinte e cinco anos o lisboeta concretiza o sonho de ser taxista para poder ler na praça de táxis o jornal Abola recostado ao volante. O fado faz parte da sua alma, para eles é prática comum assistir numa casa para o efeito pessoas a terem convulsões do pescoço para cima enquanto cantam músicas melancólicas e todas esganiçadas. Um paradigma deste povo não é gostar de caracóis mas perceber como os apanham tendo em conta que trabalhar não é o seu forte. Outra característica interessante dos habitantes de lisboa é o hábito de definirem lisboa como uma cidade com muita luz e claridade quando as suas ruas e paragens do autocarro comprovam que o que não falta é escuridão. Por me lembrar dos autocarros parece-me no mínimo estranho atribuir o nome das linhas de ferro que suportam os comboios à empresa que gere os autocarros…não há dúvidas que parecem um povo diferente e depois é engraçado vê-los com um ar de preeminência a disfarçar o cagaço que tem a um qualquer espirro perdido. Os lisboetas são um pouco egocêntricos, acreditam que para além da CREL não há mais mundo, eles não arriscam ultrapassar essa barreira, porque não sabem, nem querem. Nessa terra a subespécie mais respeitada são os reformados com mais de setenta anos, são a única prova viva dos feitos internacionais do Benfica, são autênticos contadores de histórias, a malta gosta de os ouvir, a malta sabe que esse passado jamais sairá das palavras dos velhinhos. Mas o seu maior orgulho reside no maior embaixador da sua cidade, a sua grande referência, a alma lisboeta que difundiu o seu nome por todo o mundo, que ninguém ouse falar mal do seu ex-líbris, que ninguém se atreva por em causa o valor do seu bitoque, não há bitoque como o de Lisboa, a sua confeção é de uma dificuldade extraordinária, só os sábios lisboetas é que foram abençoados com essa arte. Todos nós somos um pouco do nosso meio, não existe ninguém imune à influência, nesse sentido devemos respeitar as diferenças, viver em paz e em plena harmonia, está na altura de deixarmos de gozar uns com os outros e darmos as mãos. Afinal somos todos portugueses.







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