sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Português que é português

Coçar a tomateira, sem que ninguém se apercebesse, transformou-se num dos símbolos de mudança geracional. Quem fizer o exercício de confrontar o passado com hábitos do presente descobre uma mudança profunda que nada teve a ver com uma simples continuidade comportamental evolutiva mas sim com uma metamorfose apressada e inesperada proveniente de influências alienígenas cuspidas pelos meios de informação. Na verdade as tradições autênticas dos portugueses estão a cair em desuso, o respeito pela nossa genuinidade esfumou-se num par de anos, o poder influênciativo de modas alheias atirou contra a parede toda a nossa verdadeira natureza, os nossos hábitos já não são hábitos, os nossos estereótipos vivem agora no passado, o português já não é português, é simplesmente um homem do mundo. A mania das regras de etiqueta implementadas pelos “cócós” que acham que dar um peido é falta de respeito assassinou a essência do que é ser português. Português que é português coça os tomates em público com a maior das liberdades sem que se tenha de preocupar com a observação e avaliação dos outros, português que é português sente orgulho quando coça e levanta a cabeça passando o olhar por toda a nação inspirando o ar trazido pelo vento representando toda a confiança do mundo; não é português aquele que sente comichão e não coça, aquele que disfarça metendo a mão no bolso já furado para esse efeito, aquele que se esconde com vergonha de sentir vontade de coçar. Português que é português usa bigode…o bigode declama a pujança do que é ser português. Português sem bigode é fogo sem chama, são flores sem perfume. O português sente brio quando sente os salpicos de sopa agarrados aos pêlos do bigode, o guardanapo inimigo nem ousa aparecer, beijo sem bigode para a mulher do português é desenxabido, sentir o buço arranhado provoca nelas ardência e excitação. Português que é português cospe quando tem que cuspir, nunca adia desalojar a gosma, é no momento e com o máximo de barulho possível para avisar todo o mundo que a está arrastar a viscosidade desde o esófago. Cuspir para um lenço é uma paneleirice, o chão é o sítio, a chuva lava tudo. Português que é português gosta de meia branca, meia preta é inestética. A fivela do sapato só sorri na companhia da meia branca, meia preta é para quem não tem gosto, meia preta viola a arte de bem vestir. Português que é português nunca coloca a comida no seu prato, isso é serviço da mulher. A mulher cozinha, serve e lava a louça, para o português essa é a prova da sua existência. Português que é português vai ao café embebedar-se para ter pretextos para bater na mulher, homem que não bate na mulher não é português, a mulher deve estar debaixo do homem quando ele entender, ele manda, se assim não for não é português, é um homem do mundo. Português que é português não corta a unha do dedo mendinho, cotonetes é coisa de gays, ficar com a unha cor de laranja depois da limpeza do ouvido é coisa de homens de pêlo na venta. Unha grande é sinónimo de masculinidade, compostura e vanglória. Unha grande imprime respeito nos outros é sinal de soberania social e estatuto, ninguém ousa impor-se a quem tiver a unhaca crescida. Português que é português usa o tercinho no retrovisor do seu carro, o português não abdica dessa proteção, acredita profundamente que a alma divina o acompanha, não se importa de ver Jesus Cristo pendurado no terço a esmurrar-se permanentemente contra o vidro como se um cisco no olho se tratasse. A presença do terço é imperativo e nunca incomoda. Quem não ombrear o tercinho é um herege, é um cidadão do mundo. Português que é português não se deixa vencer pelas regras de cidadania, o português é corajoso, astuto e insubmisso. Quem respeita as regras não é ousado mas sim um cobarde que não é capaz de viver no limite da aventura. Para um português só cumprem as regras os cagões que não cospem para o chão, que usam meias pretas, que não batem na mulher, que cortam as unhas todas e que não usam o tercinho pendurado. Português que é português não é português. 

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