As aldeias são como paraísos terrenos que permite aos forasteiros um refúgio medicinal. A pureza do seu ar, a inocência da sua água, a envolvência da humildade das pessoas, o cheiro a estrume, o alarme das galinhas saído de autênticos minaretes são tudo sinais de vitalidade e robustez desse mundo que parece resistir a todo tipo de influência socioeconómicas provenientes dos sítios poluídos que moram do outro lado do monte. A vida forçosamente pacata nesse pequeno universo ofereceu às pessoas formas e vivências muito peculiares que se transformaram em registos comportamentais muito próprios definindo-as com ligeira diferença. Tendo em consideração os seus ancestrais a maioria dos portugueses, no natal, são empurrados pela tradição e petiscam uma pequena visita às suas origens. O primeiro sintoma de proximidade do destino são aquelas estradas cheias de curvas que tem como intenção reduzir a velocidade dos carros para que cada aldeão que esteja no café, à porta de casa ou parado num sítio qualquer possa ver quem vai dentro do automóvel, por vezes até dão a sensação que estão em Wimbledon a seguir a bola num jogo de ténis tal a intensidade dos movimentos que fazem com a cabeça cada vez que um carro passa. A hora da missa é soberana, quem não vestir a melhor roupa não entra e depois há aqueles que chegam mais tarde para mostrar as “texanas” novas e como se isso não bastasse procuram o lugar na frente, junto ao altar, sendo que a caminho, como tudo é família, resolvem dar beijinhos a tudo e a todos…não satisfeitos a meio da missa na parte dos cumprimentos voltam a bombardear toda a gente com beijinhos e no fim, já no exterior da igreja, a terceira vaga de beijos arranca com sofreguidão e loucura como se o dia se fosse transformar em noite. Um fenómeno alarmante é perceber que todos aqueles que não são filhos diretos da terra não tem direito a nome, é como na Judeia, são o filho do Manel, o filho do Xico, o filho do Quim ou do filho do Zé e pior do que isso é encontrar família desconhecida por todo lado que não está habituada a cumprimentar de beijo com o encostar de cara e por isso resolvem esfregar os seus lábios na nossa bochecha até abrirem valas, e não contentes libertam um barulho acompanhante que faz parecer que estamos ao lado de uma turbina de um avião. A ida ao café transforma-se numa aventura que nos remete para a lembrança de filmes que outrora foram momentos de entretenimento. Avistar o café ao longe oferece-nos uma visão desencorajadora de indivíduos que protegem a porta de pernas abertas cheios de “stile” a envergar umas calças com letras embutidas de cores diferentes e um blusão com o número 33 cravado por cima de umas letras douradas que todas juntas diziam “Naf Naf”. A imagem de marca do seu estilo, que até se pode considerar intimidatório, é colocar os dedos polegares pendurados no canto de cada bolso deixando os outros quatro irmãos de fora tudo isso acompanhado por um olhar agressivo que na lógica deles é uma técnica de sedução. Para termos acesso ao café temos que ultrapassar um labirinto de motorizadas Casal Sachs e Zundapps Famel que são as meninas dos olhos de cada um representando tudo aquilo que haviam sonhado. Ultrapassado todas essas barreiras que encandeiam os olhos a entrada no café despoleta um silêncio ensurdecedor imbuída de olhares fulminantes que nos fazem sentir como um criminoso procurado. A normalidade volta com o barulho dos matrecos e do bilhar conjugado com o esforço que os seus executantes fazem para vencer cada partida tendo em conta que essa tarefa é melhor forma de elevar o ego para cortejar umas tais miúdas que nada percebem de exigência intelectual. Mas tudo isto vale a pena porque o almoço lá em casa vem logo a seguir e compensa todas as desventuras perturbantes que nos rodeiam num lugar de inadaptabilidade.







Muito bom, gostei... Parabéns!
ResponderEliminarJá sei onde ir buscar textos para Português.
Na brinca :-)